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Cutucando a colmeia: Existe um “Rito Inglês”? (Parte I)

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Ir a conferências sobre maçonaria não é apenas uma oportunidade de aprender, encontrar outros pesquisadores, estabelecer uma rede de contatos, fazer amigos, encontrar irmãos, e de tirar fotos nas quais ficamos parecendo muito importantes. Elas também são uma oportunidade de identificar os pontos nos quais a comunidade de pesquisadores concorda ou discorda, quais tópicos estão ganhando mais atenção, e por aí vai. Como eu escrevi no meu primeiro post para este blog, as “discordâncias” demonstram a multiplicidade da Maçonaria como fato social e como fenômeno cultural.

De qualquer maneira, a maioria das discordâncias não vêm de uma base teórica ou bibliográfica. Frequentemente, pesquisadores concentram nas partes em que concordam e negligenciam os pontos em que discordam. Em uma espécie de situação invertida do que acontece num seminário estritamente acadêmico, as conferências sobre maçonaria tendem a estender a beleza da tolerância fraternal a situações nas quais questionamentos e “disputas” são não apenas desejáveis, mas necessárias. Pelo bem do progresso da pesquisa.

Em uma resenha para uma revista acadêmica brasileira (Topoi), escrevi que os pesquisadores na área de história da maçonaria “estão separados por um tema comum”. E o que eu quero dizer com isso? Que existe a falta de uma dose maior de uniformidade conceitual, o que se deve a multiplicidade de “maçonarias”, mas mais do que isso, que se deve à percepção de que a realidade, a análise, e o vocabulário de um “ramo” da maçonaria (país, rito, potência, etc.) – o ramo do qual parte a observação – é automaticamente aplicável a outros.

Isso leva a uma expansão de termos que, além de não serem precisos, acabam sendo largamente difundidos entre os maçons que entendem algo como: “Esse termo não é muito preciso, mas o meu público [ou “os meus irmãos”], saberão do que estou falando”. O problema é que os leitores não-maçons, ou não-acadêmicos, percebem da seguinte maneira: “Este termo é preciso, já que os maçons [ou acadêmicos da área] mesmos estão utilizando”. Bem, eu não posso frisar o suficiente que a pesquisa em História, é como qualquer outra, ou seja: por um lado é necessário estabelecer consensos, por outro, é necessário desafiar os consensos que entendemos estarem equivocados (obviamente, desde que baseados em uma dúvida que possua lógica e que seja legítima, isto é, não-diversionista).

Isso dito, eu gostaria de desenvolver com você, meu querido leitor, uma questão cuja resposta será transformada, sumariamente, em uma nota de rodapé algum dia. A questão é: existe um “rito inglês”? (Cabe o esclarecimento aqui de que não me refiro ao patronímico para algo ou alguém originado na Inglaterra, mas sim ao termo como um todo, ao qual muitos se referem para falar do sistema maçônico existente na Inglaterra).

Minha resposta: sim e não.

Calma lá, eu não pretendo me desviar da questão, tampouco oferecer uma resposta paradoxal. Mas a resposta – a minha resposta – não será abrupta. E pelas aspas utilizadas, você, leitor inteligente, já sabe qual será.

Se olharmos em qualquer dicionário, a resposta (semântica) é sim, há um “Rito Inglês”. Consultando o bom e velho Dicionário Oxford da Língua Inglesa, encontramos entre as definições de rito “ato ou cerimônia solene” (confere), “conjunto de práticas costumeiras” (confere), e ainda por cima, a palavra vem do latim ritus, significando “uso (religioso)” (definitivamente confere).

Então, agora que a gente fez a nossa pesquisa de domingo, podemos ir para casa contentes e satisfeitos, existe um Rito Inglês. Mas espere, se você checar um post que fiz aqui, você verá que devemos ser mais cautelosos. Vamos “fatiar” a questão: o que rito significa? (ótimo, já fizemos isso); o que “rito maçônico” significa?; e, os maçons ingleses se reconhecem como sendo parte de um rito maçônico? Finalmente, existe um “Rito Inglês”?

Eu poderia recorrer a minha prática maçônica, mas é sempre melhor oferecer um modo de responder que seja menos tendencioso (e menos solipsístico). Vamos verificar o que os dicionários e enciclopédias maçônicas dizem sobre rito e rito maçônico. E, alerta de spoiler, eles vão “bater” bastante na minha proposição.

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Nota Explicativa:  Um dos símbolos da maçonaria é a colmeia (Beehive, em inglês), significando, entre outras coisas, comunidade e fraternidade. Em inglês a expressão “poking the beehive” é um equivalente do nosso  “cutucar a onça com vara curta”, em português. Resolvi chamar essa série de artigos “cutucando a colmeia” não somente pelo trocadilho, mas pelo fato que muitos maçons, e estudiosos, possuem fortes opiniões sobre esses tópicos.