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Cutucando a colmeia: Existe um “Rito Inglês”? (Parte V)

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Por que toda essa preocupação com a existência ou não de um “Rito Inglês”? Estamos nos perdendo em semântica, alguns dirão. Bem, eu posso até concordar se estamos falando de maçonaria para o praticante – neste caso, um maçom. Para o membro de uma loja em Bristol ou em Kent, o nome pelo qual seus rituais são chamados pode ser de pouca ou nenhuma importância dado que eles os estão praticando, independentemente dessa discussão. Porém, antes que eu defenda a importância das definições para qualquer estudo acadêmico (ou outro estudo compromissado), deixe-me falar da significância que isso tem para o maçons.

Clifford Geertz, um antropólogo estadunidense, publicou em 1973 um livro chamado “A Interpretação das Culturas”. Esse trabalho foi um divisor de águas não somente para a antropologia mas seus efeitos foram sentidos no campo dos estudos históricos também. De todas as ideias importantes que ele apresenta nesse livro, podemos selecionar algumas para explicar porque o conceito de “rito maçônico” é importante, e também porque é crucial saber se esse conceito pode ser aplicado ao sistema inglês de maçonaria; por último, mas não menos importante, se os maçons ingleses se reconhecem neste conceito de rito maçônico.

Em “A Interpretação das Culturas”, para se opor à antropologia estrutural de Claude-Levi Strauss, Geertz propõe um antropologia interpretativa; e o que isso significa? Entre outras coisas, Geertz afirma que uma interpretação não deve se distanciar daquilo que está acontecendo, ou seja, não deve se distanciar do seu objeto de estudo. Ele também alerta que para entender uma cultura não é necessário se tornar um “nativo”, mas que é de fato necessário falar com eles (os nativos de uma dada cultura), entendê-los, perceber como usam seus conceitos. Por isso a precisão conceitual é tão importante e rigorosa na antropologia interpretativa, e por extensão, nas história que se pratica nos dias de hoje.

Isso dito, trarei minha própria experiência que não é etnográfica na sua natureza, mas que possui certo valor etnográfico, especialmente para este tópico. Eu sou brasileiro, então, frequentemente, alguns maçons (ingleses) me perguntam como é a maçonaria no Brasil. E adivinhem qual a parte mais difícil, quase impossível, de explicar? Sim, a noção de “rito”. Porque para a chamada “maçonaria continental” o conceito de rito é crucial dado que os graus simbólicos são trabalhados dentro da tradição de um rito, ou seja, os graus simbólicos são os graus fundamentais de um sistema maior que funciona de maneira vertical. Para a maçonaria inglesa, rito é um conceito alienígena, ainda mais quando se refere aos graus simbólicos. Isso significa que não existem ritos na Inglaterra? Não, eles existem, mas um rito é um caminho dentre as várias possibilidades permitidas pelo sistema inglês.

A noção de rito é louvável na sua ecumenicidade, de qualquer maneira, eu a percebo como inadequada quando se trata da estrutura da maçonaria inglesa. Existem ritos – i.e. um grupo de graus conferidos dentro uma ordem particular em sequência estabelecida – dentro do sistema inglês. Um maçom inglês pode ingressar no Rito Escocês Antigo e Aceito, por exemplo. Porém, depois dos graus simbólicos, o maçom não é obrigado a progredir por nenhum caminho particular. Alguns dirão que o mestre maçom inglês é fortemente encorajado a ingressar no Sagrado Arco Real, e etc. Apesar disso, o mestre maçom pode ingressar também na Loja de Mestres Maçons da Marca, na Societas Rosacruciana in Anglia, no Rito Escocês Antigo e Aceito… O fato é: não há uma sequência vertical, necessária e obrigatória.

O outro ponto é que os “altos graus” no sistema inglês são trabalhados dentro de Ordens, mais do que no âmbito de um rito os controlando. A maioria dessas ordens trabalha de um (como o Sagrado Arco Real) a cinco graus (como a Allied Masonic Degrees), e toda ordem, ou a combinação de duas ou mais ordens, servem de pré-requisito para ingressar em ainda outras ordens. Alguns verão nisso evidência suficiente para aplicar o termo “rito”, mas novamente, devemos relembrar a história da maçonaria e de seus ritos. A maioria dos ritos iniciou com um grupo de graus, já existente, e que em algum momento foram compilados, incrementados e organizados de modo a conferir uma estrutura e base filosófica.

O que eu pretendo expor aqui é uma visão buscando maior precisão, o que é sempre necessário na academia, e eu acredito que precisão é sempre bem-vinda em qualquer área, acadêmica ou amadora. Não há nada de terrivelmente errado em chamar o que acontece na maçonaria inglesa (ou lugares que praticam esse sistema) de “rito inglês”, todavia, isso pode levar (e por experiência pessoal e profissional, posso dizer que leva) a um entendimento de que há uma sequência mandatória ou encadeada entre os ritos e ordens que compõem o sistema inglês.

A noção de rito é onipresente, como eu tentei demonstrar nessa sequência de posts. Também, a noção de rito é realmente cara à maioria dos maçons porque facilita as coisas. De qualquer modo, essa noção pode ser uma armadilha quando estamos buscando entender um sistema maçônico específico, diferente daqueles que conhecemos. Para exemplificar: é como chegar na casa de uma família e presumir que eles comem os mesmos pratos que a sua família, que eles chamam o cachorro pelo mesmo nome, que eles passam as férias na mesma praia, etc, somente porque eles são uma família (como a sua) e porque vivem numa casa (como a sua).

Nomes não são apenas uma etiqueta, eles estão imbuídos de valores, noções e significados. Como é frequentemente dito “se tudo é arte, nada é arte”. Da mesma maneira, se todo conjunto de rituais na maçonaria é um rito, então nada é um rito. A fim de estudar algo, muitas vezes necessitamos de generalizações, mas outras vezes necessitamos de detalhamento. Ainda assim, a generalização pode levar à massificação, ignorando diferenças obvias, e a especificação pode singularizar algo a ponto de tornar impossível o conhecimento daquele objeto.

A pesquisa e a minha experiência “etnográfica” amadora na Inglaterra me levaram a entender que o que existe neste país é um sistema de maçonaria. Esse sistema abriga ritos e ordens, mas sendo uma exorbitância chamar de rito o conjunto da maçonaria inglesa. Todavia, não critico os esforços feitos no passado de propagar o sistema inglês chamando-o de rito. Hughan e outros fizeram um trabalho fantástico “traduzindo” como eram conduzidos na Inglaterra a passagem dos graus, além de outros aspectos da maçonaria simbólica.

Ainda assim, desde então, os estudos maçônicos cresceram em importância, escopo e complexidade. Já é hora de nós pesquisadores, amadores e profissionais, sermos mais cuidadosos com as especificidades da maçonaria. Ao mesmo tempo, as ferramentas oferecidas pela teoria (das humanidades e ciências sociais) podem ser utilizadas para entender este fenômeno que está longe de ser “nicho” ou somente do interesse de maçons.

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Cutucando a colmeia: Existe um “Rito Inglês”? (Parte IV)

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De todas as definições e tentativas de resumir o que é um rito maçônico, é possível descobrir que o seu significado transitou de um segmento do ritual para o conceito de uma coleção de graus em ordem específica – concepção essa trazida pela chegada dos altos graus, especialmente daqueles surgidos na Europa continental. Desde que este vocabulário se espalhou, o conceito de rito acabou tendo um significado mais amplo, abrangendo todos os sistemas maçônicos, sejam estes similares ao que um rito originalmente significava, ou não.

O que os livros que consultamos até agora tem a dizer sobre a existência de um “Rito Inglês”? Como sabemos, muitas dessas obras trazem listas dos ritos conhecidos pelos seus autores até aquele momento. Reverendo George Oliver em seu “Dictionary of Symbolical Masonry” (1853) não menciona um Rito Inglês, ou seja, a expressão não constitui um verbete em seu dicionário.

Robert Macoy em seu “General History, Cyclopaedia and Dictionary of Freemasonry” (1870), lista um Rito Inglês e o define como “adotado pela Grande Loja Unida da Inglaterra e País de Gales na União de 1813, e agora praticado pelas lojas sob sua jurisdição.” (p.327). Sob o verbete “Rito” da parte enciclopédica de sua obra (lembrando que a parte dicionarista é uma republicação do livro de George Oliver), ele enumera diversos ritos, entre eles o “Rito Inglês” com a já mencionada definição. Entretanto, todos os ritos nomeados por Macoy possuem um verbete na sua enciclopédia, porém o mesmo não acontece apenas com um deles: o suposto “Rito Inglês”.

No entanto, um padrão se iniciou com Macoy e continua até hoje: o “Rito Inglês” é listado, mas nunca explicado. Mackey, no seu crucial “A Lexicon of Freemasonry” (1873) também lista um “Rito Inglês”, porém não oferece mais explicações. Ainda, vale salientar, Mackey possui um verbete para cada rito que lista.

A opinião de A.F.A. Woodford sobre este assunto, publicada na “Kenning’s Masonic Encyclopaedia” (1878) era bastante explícita. Ao definir rito ele começa com “Apesar de na Maçonaria Simbólica Inglesa nós somente reconhecermos os Três Graus e o Arco Real, todavia, em uma Enciclopédia nós devemos reconhecer que, para o bem ou para o mal, existem os assim chamados Ritos Maçônicos no mundo” (p.578). Desnecessário dizer que não há um verbete, ou sequer menção, a um “Rito Inglês” nessa obra. Apesar disso, sob a letra E, há o verbete “sistema Inglês” (English system) que eu reproduzo aqui na íntegra:

“Sistema Inglês, O. – O sistema Inglês de Maçonaria é de certa forma nativo e peculiar, e nisso também é sua teoria, sua unidade, e desenvolvimento prático, diferentes de qualquer outro sistema conhecido. Isso quer dizer que ele repousa sobre os três graus simbólicos, mas faz do Arco Real o complemento do edifício maçônico. Nós, na Inglaterra, sabemos bem o valor do nosso sistema, não o trocaríamos por qualquer outro, tampouco o aumentaríamos ou o alteraríamos. Tal como é, nós o recebemos dos nossos antepassados Maçônicos, e como tal desejamos passá-lo à nossa prole Maçônica. É um sistema que não obstante é a fundação de todos outros sistemas Europeus, Americanos e Asiáticos; e na nossa opinião, onde quer que outros se desviaram dele, ou o diminuíram, ou o expandiram, o fizeram errado. O sistema Inglês é, no seu desenvolvimento prático, cosmopolita e universal; e enquanto é ao mesmo tempo reverencial e religioso em todas suas referências às grandes verdades da sabedoria divina, ele desaprova toda controvérsia contenciosa e ignora todas as declaração denominais.” (p.200)

As questões a ser observadas a partir dessa citação são várias. Primeiro, como historiador não há juízo de valor a ser feito, ou seja, temos de avaliar a definição de Woodford pelo que ela é: a opinião de um eminente maçom inglês e autor maçônico do século XIX. Segundo, o verbete escrito por ele deixa claro que não havia um “Rito Inglês”, mas sim um Sistema Inglês, de acordo com a opinião de um importante estrato da maçonaria inglesa naquela época. Terceiro, que o orgulho advindo de tal análise deve-se a uma certa ancestralidade do sistema Inglês sobre outros sistemas no mundo. Apesar de suas visões bastante intensas, o que Woodford traz à baila é uma melhor definição de como os maçons ingleses entendiam por sistema, e na minha análise, esse termo pode servir melhor para definir a estrutura maçônica na Inglaterra.

Para colocar um pouco de sal na discussão inglesa, temos William James Hughan. Ele foi um dos abnegados pesquisadores sobre maçonaria que surgiram entre meados do século 19 e começo do século 20. Hughan era um maçom bem estabelecido, tendo sido Past Grande Oficial (Loja Simbólica e Capítulo do Arco Real) na Província de Cornwall, e também Past Grande Primeiro Vigilante da Grande Loja Unida da Inglaterra.

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William James Hughan (1841-1911)

Entre suas obras, uma é de especial importância aqui: “Origin of the English Rite of Freemasonry”, de 1884. Eu estava realmente curioso para ler o que Hughan revelaria sobre o “Rito Inglês”, já que é difícil entender o sistema Inglês como “graus progressivos de iniciação” como conceituado por Mackey. William James Hughan escreveu de fato uma bela obra sobre a evolução da maçonaria simbólica na Inglaterra, e o desenvolvimento do Arco Real. De qualquer maneira, parece que a expressão “Rito Inglês”  foi utilizada no livro para dar envergadura à obra fora da Inglaterra, e/ou uma tentativa de trazer o termo ao público inglês.

Analisando o livro, é perceptível que Hughan usa a expressão “Rito Inglês” apenas cinco vezes, em um livro de cento e cinquenta páginas. Até a expressão “rito” é utilizada somente 10 vezes durante toda a obra. Esses números revelam que a noção de rito, ou que a existência de um Rito Inglês, não é tão crucial para explicar o sistema existente na Inglaterra, muito menos sua maçonaria simbólica. O próprio Hughan, na última página desse livro, escreve: “Logo, o ‘Rito Inglês’ de maçonaria […]” (sublinhado meu, aspas do autor). Então, Hughan estava ortograficamente admitindo que chamar a maçonaria simbólica, mais o Sagrado Arco Real, de “Rito Inglês” era dar demasiada elasticidade à noção de rito. William James Hughan era um maçom cosmopolita, um membro honorário de várias lojas e sociedades estrangeiras. Seu livro foi, provavelmente, uma tentativa de apresentar o sistema maçônico inglês para um público mais amplo, de uma maneira que este público pudesse entender e se identificar com a maçonaria inglesa.

Sobre o artigo de Arturo de Hoyos “Masonic Rites and Systems”, suficiente dizer que a expressão “Rito Inglês” não é usada nenhuma vez, apesar da definição “ecumênica” de rito dada pelo autor. Mas já que de Hoyos nos traz uma definição mais sofisticada, trarei sua discussão na próxima parte dessa série.

Por ora, podemos observar que houve mais uma vontade de enquadrar a maçonaria inglesa no entendimento continental de “rito maçônico” do que uma percepção apurada desse sistema em seus próprios termos. Mais do que um detalhe histórico, o entendimento de um grupo a partir de seus próprios termos, expressões e costumes é chave para qualquer análise histórica. Porém, mais sobre isso na próxima parte.

Esclarecimento: as traduções de trechos das obras mencionadas foram feitas por mim, portanto, não possuem a intenção de ser uma tradução profissional. As fiz tão somente para não prejudicar a leitura daqueles que não possuem familiaridade com a língua inglesa.

Cutucando a colmeia: Existe um “Rito Inglês”? (Parte III)

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Continuando a nossa jornada pelas definições de rito, iniciarei com ninguém menos que Albert Mackey. Sua vida é merecedora de um post (ou vários) inteiro, dedicado aos seus feitos e talentos. Suficiente dizer que Mackey foi médico, jornalista, e o mais importante, um educador. Ele dedicou a maior parte de sua vida ao estudo de línguas, da idade média, e da maçonaria, entre outros tópicos.

De sua extensa bibliografia, selecionei duas obras que servirão ao meu propósito: achar definições que foram escritas para ser definições. Pela distância das duas obras no tempo, também é interessante notar os ajustes feitos por Mackey. No primeiro trabalho selecionado. A Lexicon of Freemasonry” (1845, mas a citação é da 13ª edição, de 1869), o autor define rito em um parágrafo constituído de duas frases. Na primeira frase, ele define o que é rito para a maçonaria, e na segunda, o que é rito maçônico. Apesar de complementares, elas trazem informações distintas.

RITO. Uma modificação da maçonaria, na qual os três antigos graus e seus aspectos essenciais são preservados, há vários nas cerimônias, e números e nomes de graus adicionais. Um rito maçônico é, portanto, de acordo com a significação geral da palavra, o método, ordem e regras a serem observados na performance e governo do sistema maçônico.” (p.410)

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Albert Mackey (1807-1881), como ele aparece em várias edições de seus livros. Pode-se observar, em seu peito, a medalha do grau 33 do Rito Escocês Antigo e Aceito.

Aqui, Mackey traz a expressão “sistema” que será importante mais adiante, uma expressão que será misturada com a palavra rito frequentemente. De qualquer maneira, Mackey traz o termo sistema sem especificar o que queria dizer com “sistema maçônico”. Mas adiantemos alguns anos e consultemos a obra-prima de Mackey “Encyclopaedia of Freemasonry and its Kindred Sciences (1873), na qual o autor estabelece um definição mais polida e concisa.

“RITO. Um método de conferir luz maçônica através de uma coleção e distribuição de graus. É, em outras palavras, o método e ordem observados no governo de um sistema maçônico” (p.626)

Para equiparar este post ao anterior, é essencial trazer um autor inglês e sua definição de rito. Este autor em particular estava escrevendo ao mesmo tempo em que Mackey redigia suas obras, porém do outro lado do Atlântico. A.F.A. Woodford era um desses maçons do século dezenove que, através da pesquisa, levou a maçonaria para um outro nível. Além de reverendo da Igreja Anglicana, Woodford era um ávido maçom e pesquisador. Ele esteve por trás da formação da Loja de pesquisas Quatuor Coronati, e de publicações inglesas sobre maçonaria, tais como “The Freemason” e “The Masonic Magazine”. O editor dessas duas revistas, George Kenning, enxergou o nicho editorial que era a maçonaria e lançou aKenning’s Masonic Cyclopaedia”, em 1878. Livro este editado por Woodford, à época Past Grande Capelão da UGLE, e que mostra uma visão tão autoral quanto bem fundamentada dos tópicos a serem definidos. Segundo Woodford

“Rito – Apesar de conhecermos e reconhecermos apenas os três graus e o Arco Real na nossa maçonaria simbólica inglesa, em uma enciclopédia temos que reconhecer que, para o bem ou para o mal, existem os chamados Ritos Maçônicos no mundo. Alguns de nós talvez estejamos dispostos a rejeitar essa multiplicação de Ritos; de qualquer forma, outros podem ver de maneira favorável alguns deles; acreditemos neles ou não. É impossível lista-los todos aqui, como também seria, penso eu, inútil. Alguns dizem que existem 108 ritos e 1.400 graus; mas muitos deles são claramente apenas quase Maçônicos, e alguns nada Maçônicos. Nós então nos propomos apensa a listar hoje aqueles os quais consideramos em nossos estudos, ou aqueles que os nos leitores provavelmente encontrarão em trabalhos Maçônicos…” pp.578-579.

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Adolphus Frederik Alexander Woodford (1821-1887). Os paramentos que ele está usando são os de Grande Capelão da Grande Loja Unida da Inglaterra.

Outros trabalhos, comoThe Royal Masonic Cyclopaedia” (1877), por Kenneth Mackenzie, apenas trazem considerações sobre ritos como se fosse algo implícito, sem nenhuma definição outra que não a dada por dicionários. Todavia, o tema “ritos”, ou “rituais” neste caso, ganhou várias publicações ao longo do século vinte. Uma lista desses trabalhos seria fascinante mas terrivelmente desgastante. Aceleremos o tempo para 2014, para um capítulo do livro “Handbook of Freemasonry”, chamado “Ritos e Sistemas Maçônicos” escrito por um dos mais melhores pesquisadores em Maçonaria nos dias de hoje: Arturo de Hoyos.

Como em qualquer manual, de Hoyos tinha poucas páginas para dar uma introdução breve, porém profunda, daquele tópico. Em vez de uma única definição, ele ampliou a explicação, mostrando as diferenças de entendimento que “rito” poderia adquirir para a Maçonaria, e para os maçons. No entanto, ele insere no título a palavra “sistemas”, como algo separado embora conjugado: “Ritos e Sistemas Maçônicos”. Voltarei a este tema no próximo post.

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Arturo de Hoyos, que dentre várias das suas qualificações e títulos maçônicos, é o Grande Arquivista e Grande Historiador do Supremo Conselho do Rito Escocês Antigo e Aceito da Jurisdição Sul.

Por ora, é importante encerrar essa série de definições de rito maçônico. Eu recomendo fortemente a todos que leiam na íntegra o capítulo de Arturo de Hoyos (na verdade, o livro todo é essencial), pois para o propósito do raciocínio que estou desenvolvendo, terei de pinçar algumas das definições de rito que ele oferece. Após a já famosa definição lexicográfica, diz de Hoyos entre outras coisas:

“Há dois tipos principais de ritos na maçonaria: (1) um procedimento com uma natureza simbólica ou definida, tais como os ritos de circum-ambulação, descalçamento, ou investitura, que podem ser agrupados para formar uma cerimônia maior (ou grau), e (2) o encadeamento de graus maçônicos, para iniciação ou instrução, sob uma autoridade administrativa ou governamental. Este capítulo foca nessa última aplicação […] Em um sentido geral, um Rito é qualquer número de graus agrupados. Um rito pode ser comparado com uma escada composta de degraus individuais. Os degraus representam graus maçônicos individuais, enquanto a escada como um todo é análoga ao Rito. Os graus de um Rito terão geralmente, mas nem sempre, uma designação numérica ou uma posição fixa no calendário ou plano. O Rito pode ser dividido em sub-organizações (‘lojas’, ‘capítulos’, ‘conselhos’, e assim por diante), assim como a escada por ser dividida por um número de ‘patamares’ que conectam as escadas entre andares. Os graus que perfazem um Rito podem ser arranjados em uma sequência particular por várias razões, incluindo mitologia, cronologia e/ou tradição, ou eles podem aparecer não relacionados uns aos outros, tendo sido derivados de várias fontes, ou tendo sido agregados em períodos diferentes.” pp.355-356

É possível verificar como Arturo de Hoyos condensa e sofistica a definição de Rito para abranger todas as variações no processo de conferir graus. Algo que não citei na versão em inglês, é que omiti deliberadamente a definição contida na “Coil’s Masonic Encyclopaedia” por entender que de Hoyos bebe desta fonte e a amalgama em seu texto. De qualquer maneira, nesse artigo, Arturo de Hoyos aponta algumas diferenças que eu entendo serem cruciais para afunilar a definição de Rito Maçônico. No próximo post, eu tentarei condensar esses entendimentos de Rito Maçônico e checar o que estes mesmos autores têm a dizer sobre a existência ou não de um “Rito Inglês”.

Esclarecimento: as traduções de trechos das obras mencionadas foram feitas por mim, portanto, não possuem a intenção de ser uma tradução profissional. As fiz tão somente para não prejudicar a leitura daqueles que não possuem familiaridade com a língua inglesa.

Cutucando a colmeia: Existe um “Rito Inglês”? (Parte II)

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No ultimo post, eu introduzi a questão sobre a existência ou não de um “rito inglês”. Também disse no texto anterior que as aspas e a própria questão em si, são suficientes para mostrar que estou duvidando da expressão essa que é utilizada por alguns pesquisadores, bem como por alguns maçons.

Mostrei, brevemente, as definições que a palavra rito possui no dicionário, e que de acordo com essas definições seria possível dizer que sim, existe um “rito inglês”. Porém, maçonaria é uma prática complexa e suas instituições são antigas, possuindo, portanto, história, vocabulário, expressões e costumes próprios. Além disso, a amplitude do fenômeno maçônico e sua disseminação pelo globo fizeram crescer ainda mais a quantidade de termos, costumes, graus, etc.

Obviamente, essa pequena pesquisa que ora apresento está longe de ser exaustiva. Ela está limitada, sobretudo, pelos livros aos quais tenho acesso imediato, e dentre esses, pelos que trazem uma definição de rito. Obras como o “A Dictionary of Symbolical Masonry”, de 1853, o qual foi “compilado a partir das melhores autoridades maçônicas” pelo Reverendo G. Oliver. De acordo com a primeira capa do livro “Um Ex-Deputado do Grão Mestre, e Membro Honorário de Muitas Lojas e Sociedades Literárias; Autor de ‘Os Landmarks Históricos da Maçonaria’ Etc. Etc.”

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George Oliver, artista desconhecido, meados do século 19, 220 mm x 145 mm. Doado por Henry Witte Martin, 1861. NPG D13664. National Portrait Gallery

Na definição feita por Oliver é possível ver a interpretação bifurcada de rito maçônico que prevalece como estrutura explicativa até os dias de hoje. Ele escreve que rito “é um item dentro do cerimonial para conferir graus” (p.311), isto é, toda reunião maçônica é formada por uma série de pequenos ritos. No caso inglês, exemplos seriam a procissão de entrada e de saída, a circum-ambulação, a abertura da loja, etc. A essa definição, Oliver acrescenta “[…] no entanto, em alguns países [a definição] é estendida para incluir o número de graus e ordens, como no rito Francês ‘antigo e aceito’ o qual compreende […]” (p.311) listando então alguns graus daquele rito.

Outro autor, Robert Macoy, era um desses fenômenos americanos quando o assunto é maçonaria. Não apenas ele era um maçom proeminente, mas também o fundador de uma editora maçônica e de uma empresa de suprimentos para a Ordem. Como se isso não fosse o suficiente, Macoy também é conhecido pela sua “General History, Cyclopaedia and Dictionary of Freemasonry”, publicada pela primeira vez em 1870, com várias outras edições até o tempo presente. Na parte enciclopédica de sua obra, Macoy expande a definição de rito (maçônico). Depois de dar uma definição dicionarista, como eu fiz no primeiro post, ele adiciona: “Franco-maçonaria, apesar de uniforme e imutável, em seus princípios e leis gerais, existe, todavia, em uma variedade de métodos ou formas, os quais são chamados de ritos.” (p.326)

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Robert Macoy retratado na página de rosto da primeira edição de sua obra “General History, Cyclopaedia and Dictionary of Freemasonry” (1870)

 

De acordo com Macoy, poder-se-ia caracterizar rito como um método ou forma no qual a maçonaria se apresenta. Um dentre vários. Mais adiante, ele conclui que tais diferenças são sem importância dado que elas não afetam em nada os fundamentais planos da ordem, tampouco perturbam sua harmonia. Ainda, Macoy escreve sobre ritos “legais”, implicando, consequentemente, na existência de ritos “ilegais”. Curiosamente, na primeira edição, disponível na página o Hathi Trust, na parte dicionarista do seu trabalho, Robert Macoy republicou a obra do Rev. George Oliver “A Dictionary of Symbolical Masonry”.

Vale ressaltar que Oliver era um maçom inglês e Macoy um maçom americano. Mais do que diferenças culturais, havia dissimilitudes em relação a maçonaria praticada por ambos os autores. Observa-se que Oliver é cuidadoso ou colocar rito (maçônico) como uma coleção de graus e ordens, e como algo praticado “em alguns países”. Embora pouco significante agora, eu irei destacar essa informação novamente nos próximos posts. Macoy, adota uma postura mais ecumênica a respeito da maçonaria que caracteriza a maçonaria do continente americano (Sul, Central e Norte) até hoje. Voltaremos a essa questão também.

À seguir… Mackey, Hughan, e outros.

Esclarecimento: as traduções de trechos das obras mencionadas foram feitas por mim, portanto, não possuem a intenção de ser uma tradução profissional. As fiz tão somente para não prejudicar a leitura daqueles que não possuem familiaridade com a língua inglesa.

 

Cutucando a colmeia: Existe um “Rito Inglês”? (Parte I)

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Ir a conferências sobre maçonaria não é apenas uma oportunidade de aprender, encontrar outros pesquisadores, estabelecer uma rede de contatos, fazer amigos, encontrar irmãos, e de tirar fotos nas quais ficamos parecendo muito importantes. Elas também são uma oportunidade de identificar os pontos nos quais a comunidade de pesquisadores concorda ou discorda, quais tópicos estão ganhando mais atenção, e por aí vai. Como eu escrevi no meu primeiro post para este blog, as “discordâncias” demonstram a multiplicidade da Maçonaria como fato social e como fenômeno cultural.

De qualquer maneira, a maioria das discordâncias não vêm de uma base teórica ou bibliográfica. Frequentemente, pesquisadores concentram nas partes em que concordam e negligenciam os pontos em que discordam. Em uma espécie de situação invertida do que acontece num seminário estritamente acadêmico, as conferências sobre maçonaria tendem a estender a beleza da tolerância fraternal a situações nas quais questionamentos e “disputas” são não apenas desejáveis, mas necessárias. Pelo bem do progresso da pesquisa.

Em uma resenha para uma revista acadêmica brasileira (Topoi), escrevi que os pesquisadores na área de história da maçonaria “estão separados por um tema comum”. E o que eu quero dizer com isso? Que existe a falta de uma dose maior de uniformidade conceitual, o que se deve a multiplicidade de “maçonarias”, mas mais do que isso, que se deve à percepção de que a realidade, a análise, e o vocabulário de um “ramo” da maçonaria (país, rito, potência, etc.) – o ramo do qual parte a observação – é automaticamente aplicável a outros.

Isso leva a uma expansão de termos que, além de não serem precisos, acabam sendo largamente difundidos entre os maçons que entendem algo como: “Esse termo não é muito preciso, mas o meu público [ou “os meus irmãos”], saberão do que estou falando”. O problema é que os leitores não-maçons, ou não-acadêmicos, percebem da seguinte maneira: “Este termo é preciso, já que os maçons [ou acadêmicos da área] mesmos estão utilizando”. Bem, eu não posso frisar o suficiente que a pesquisa em História, é como qualquer outra, ou seja: por um lado é necessário estabelecer consensos, por outro, é necessário desafiar os consensos que entendemos estarem equivocados (obviamente, desde que baseados em uma dúvida que possua lógica e que seja legítima, isto é, não-diversionista).

Isso dito, eu gostaria de desenvolver com você, meu querido leitor, uma questão cuja resposta será transformada, sumariamente, em uma nota de rodapé algum dia. A questão é: existe um “rito inglês”? (Cabe o esclarecimento aqui de que não me refiro ao patronímico para algo ou alguém originado na Inglaterra, mas sim ao termo como um todo, ao qual muitos se referem para falar do sistema maçônico existente na Inglaterra).

Minha resposta: sim e não.

Calma lá, eu não pretendo me desviar da questão, tampouco oferecer uma resposta paradoxal. Mas a resposta – a minha resposta – não será abrupta. E pelas aspas utilizadas, você, leitor inteligente, já sabe qual será.

Se olharmos em qualquer dicionário, a resposta (semântica) é sim, há um “Rito Inglês”. Consultando o bom e velho Dicionário Oxford da Língua Inglesa, encontramos entre as definições de rito “ato ou cerimônia solene” (confere), “conjunto de práticas costumeiras” (confere), e ainda por cima, a palavra vem do latim ritus, significando “uso (religioso)” (definitivamente confere).

Então, agora que a gente fez a nossa pesquisa de domingo, podemos ir para casa contentes e satisfeitos, existe um Rito Inglês. Mas espere, se você checar um post que fiz aqui, você verá que devemos ser mais cautelosos. Vamos “fatiar” a questão: o que rito significa? (ótimo, já fizemos isso); o que “rito maçônico” significa?; e, os maçons ingleses se reconhecem como sendo parte de um rito maçônico? Finalmente, existe um “Rito Inglês”?

Eu poderia recorrer a minha prática maçônica, mas é sempre melhor oferecer um modo de responder que seja menos tendencioso (e menos solipsístico). Vamos verificar o que os dicionários e enciclopédias maçônicas dizem sobre rito e rito maçônico. E, alerta de spoiler, eles vão “bater” bastante na minha proposição.

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Nota Explicativa:  Um dos símbolos da maçonaria é a colmeia (Beehive, em inglês), significando, entre outras coisas, comunidade e fraternidade. Em inglês a expressão “poking the beehive” é um equivalente do nosso  “cutucar a onça com vara curta”, em português. Resolvi chamar essa série de artigos “cutucando a colmeia” não somente pelo trocadilho, mas pelo fato que muitos maçons, e estudiosos, possuem fortes opiniões sobre esses tópicos.